terça-feira, 26 de março de 2013

PEQUENA FÉ

(Extraído do livro: Estudos no Sermão do Monte, Martyn Lloyd Jones, Ed. Fiel)

De acordo com o final do versículo 30 de Mateus capítulo 6: “...vós outros, homens de pequena fé”, percebemos nas palavras do nosso Senhor que o problema da ansiedade é a falta de fé. Ele parece ter querido dizer: A verdadeira causa da dificuldade de vocês é que vocês não extraem as deduções óbvias daquilo que acontece aos pássaros e flores.
Jesus não diz que não temos fé, mas antes, somos acusados de possuir pequena fé. Não era a falha de fé que o preocupava, mas sua inadequação. Uma vez mais devemos nos lembrar de que Jesus dirigia estas palavras exclusivamente à indivíduos crentes. Essas coisas foram ditas acerca de pessoas sobre quem Jesus pôde usar a expressão: “vosso Pai celeste”. Essa é a mensagem dirigida exclusivamente àqueles à respeito de quem as bem aventuranças se aplicam, àqueles que aceitaram Jesus Cristo como Senhor e Salvador e se tornaram assim filhos de Deus em Cristo Jesus.
Nosso Senhor falava aqui de crentes que tinham apenas a fé salvadora, mas que se inclinavam por parar nesse aspecto da fé. O desejo de Jesus era que estes fossem conduzidos a uma fé mais ampla e mais profunda, como resultado de lhe terem escutado. A preocupação e a ansiedade, o sentir-se derrotado e desanimado, o deixar-se dominar por esta vida e pelas circunstâncias que a cercam, no caso de um crente, sempre se devem a uma falta de fé. Assim sendo, aquilo que deveríamos ter por alvo é uma fé maior.
No que concerne à questão da salvação de nossas almas, sentimo-nos perfeitamente à vontade. Mediante a obra realizada pelo Espírito Santo, fomos despertados para que pudéssemos ver o nosso estado de condenados ao inferno. Vimos quão inteiramente incapazes nós somos de endireitar-nos sob as vistas de Deus, e vimos que o único caminho de libertação se encontra no Senhor Jesus Cristo que veio à este mundo, morreu por nossos pecados e dessa forma fomos reconciliados por Deus.
Infelizmente o povo evangélico frequentemente para neste ponto e no aspecto não menos importante que é a salvação eterna. Porém em suas vidas diárias os crentes vivem derrotados e pouca diferença se vê em suas vidas com a dos não crentes, pois eles se tornam ansiosos e apreensivos e amoldam-se facilmente a este mundo no tocante a muitas coisas.
Examine a Bíblia Sagrada e descubra que o número de promessas de Deus a seu povo é espantosamente grande. No entanto, costumamos selecionar algumas dentre estas promessas e não nos lembramos das muitas outras. A fé se torna confinada a apenas algumas promessas, enquanto deveríamos nos apropriar de cada uma delas.
Muitas vezes cremos no Senhor Jesus, mas não cremos em suas promessas, e não cremos nEle quando Ele declara uma coisa como essa de que haveria de cuidar do nosso alimento, bebidas e vestes. Jesus Cristo disse: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei”. (Mateus 11:28); mas guardamos para nós mesmos nossos problemas, preocupações, sentindo-nos esmigalhados pelo excessivo peso, derrotados por estas coisas, ansiosos a respeito delas. Contudo, a nossa dificuldade é que não confiamos no Senhor Jesus. Essa é a nossa pior dificuldade. A “pequena fé” não aceita o que a Bíblia diz, sem tirar e nem pôr, e nem crê para viver por ela, aplicando-a a vida diária.
O quadro que nos é fornecido é de um povo que está sendo governado pelas circunstâncias externas da vida. As coisas acontecem conosco, e imediatamente elas nos subjugam e dominam. Mas a descrição que as escrituras fazem do crente é a de alguém que sempre se conserva acima das circunstâncias. O crente pode até mesmo regozijar-se na tribulação (ver Romanos 5:3), e não somente resistir passivamente às dificuldades. Somente alguém que tenha fé verdadeira pode olhar para esta vida segundo este prisma, e somente este alguém pode chegar a tais alturas.
Por qual motivo o homem dotado de pequena fé permite que as coisas o dominem, deixando-o derrotado? A resposta é que em certo sentido, a real dificuldade da pequena fé é que ela não deixa o crente meditar, refletir, pois precisamos ter uma correta concepção de fé. Assim, tal crente permite que as circunstâncias o avassalem. Precisamos passar mais tempo estudando as lições que nos foram dadas pelo Senhor Jesus. A fé cristã consiste primariamente em pensar. Olhe as aves, pense sobre elas. Consideremos as flores do campo e levemos em conta todas estas coisas.
A dificuldade daquele que é dotado de pequena fé é que ao invés de controlar os seus próprios pensamentos, os pensamentos deste crente estão sendo controlados por alguma outra coisa. Permitimos que os infortúnios da vida nos dominem os pensamentos, ao invés de refletirmos claramente a respeito de nossa vida diária, ao invés de encararmos a vida com firmeza, vendo-a em sua inteireza.
Devemos ler a Bíblia e pensar conosco: “ Tudo quanto estou lendo aqui foi dito para mim. Deus não muda; Ele continua sendo exatamente como era há dois mil anos atrás e todas estas coisas são absolutas e eternas. Pequena fé significa um fracasso em aceitar e confiar nas Escrituras como deveríamos.
A nossa dificuldade é que não tomamos consciência do fato que somos filhos de nosso Pai celeste. Se ao menos tivéssemos uma concepção vaga e indefinida dos propósitos divinos com relação a nós mesmos, seria impossível nos deixarmos dominar pelas nossas preocupações. Paulo orou pelos crentes em Éfeso: “...para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos, e qual a sobre-excelente grandeza sobre nós, os que cremos...” (Efésios 1:18-19)
A nossa dificuldade é que não percebemos o que somos como filhos de Deus e nem vemos os graciosos propósitos de Deus relativos a nós. Os filhos de Deus são destinados para a glória. Todos os propósitos e as promessas de Deus são dirigidas a nós e feitas somente para nós; sendo que o que necessitamos fazer é tomar consciência daquilo que Deus tem falado sobre nós como filhos Seus. No momento em que realmente aprendemos essas realidades a preocupação torna-se desnecessária. O homem então começa a aplicar a lógica que diz: “Porque se nós quando inimigos, já fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados pela sua vida.” (Romanos 5:10). Cremos em Deus, contudo quão devagar somos em crer e perceber que Ele é aquilo que assevera ser, isto é, nosso Pai de amor.
Os filhos de Deus são aqueles cujos nomes foram escritos no Livro da Vida, desde antes da fundação do mundo. Fomos eleitos “antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4). Esse foi um dos segredos dos grandes heróis da fé, como podemos ver em Hebreus 11. Estes compreenderam algo acerca dos imutáveis propósitos de Deus, e por esta mesma razão, todos eles sorriam diante das calamidades. Tão somente prosseguiam, porque assim Deus lhes dissera para fazer e também sabiam que os propósitos de Deus certamente teriam cumprimento.
A tragédia de nossa posição é que não conhecemos o amor de Deus como deveríamos. Paulo orou em favor dos crentes de Éfeso no sentido de que eles viessem a conhecer profundamente o amor de Deus. Não conhecemos a extensão do amor de Deus. Se ao menos conhecêssemos e nisto descansássemos (ver João 4:16), as nossas vidas seriam inteiramente diferentes. Se ao menos tomássemos consciência do amoroso cuidado de Deus por nós, e do fato de que Ele sabe tudo a nosso respeito, preocupando-se com as mais insignificantes minúcias de nossas vidas! O indivíduo que assim crê, jamais pode viver esmagado pelas preocupações. “ Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus, sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra” (Salmo 46:10).
À luz destas informações, não se torna ridícula toda e qualquer preocupação? Não é a preocupação algo inteiramente insensato? Isso quer dizer apenas que não pensamos e também que não lemos a Bíblia sagrada como deveríamos. Essa pequena fé deve-se à falha de não aplicarmos aquilo que reivindicamos saber e crer. Podemos nos lembrar do incidente na vida do nosso Senhor, quando Ele estava dormindo na popa do barco e a água começou a entrar. O mar se tornara extremamente agitado e os discípulos preocupados e temerosos disseram: “Mestre, Mestre, estamos perecendo!”. A resposta dada pelo Senhor Jesus foi: “Onde está a vossa fé?” (ver Lucas 8: 23-25)
Devemos cuidar para que a nossa fé esteja onde deve estar em cada determinado momento. Devemos ter consciência de que ficar preocupado é cair em grave contradição com a nossa posição de filhos de Deus. Não existe circunstância ou condição nesta vida, que deva levar um crente a ficar preocupado. O crente não tem qualquer necessidade de preocupar-se, pois se ele assim o fizer estará tão somente condenando a si mesmo como homem dotado de pequena fé, e também desonrando o seu Deus, mostrando-se desleal para com seu bendito Salvador. “Não andeis ansiosos, antes exercei a fé; compreenda a verdade bíblica e aplique-a a todos os detalhes da vida.”